Havia reuniões da ABD que
ocorriam na PUC (onde eu estudava), e fui lá eu.
Era numa sala do Departamento de Comunicação,
no Edifício Kennedy, e me lembro das figuras
de Sérgio Rezende, Sérgio Santeiro,
Silvio Da-Rin, Noilton Nunes, José Joffily
e mais um ou dois realizadores, todos na casa dos
30 e todos homens. Falava-se algo sobre a lei da
obrigatoriedade de exibição do curta,
de uma possível reunião com um ministro
qualquer etc., mas confesso que fui embora achando
tudo muito chato. Só voltei a participar de
outra reunião da ABD muitos anos depois.
Agosto de 97, Festival de Curtas de São Paulo.
Meu primeiro curta, Vox Populi, no seu primeiro festival.
Vou dividir quarto com Sérgio Santeiro, que
tinha ido para participar da eleição
da 3a Diretoria Nacional da ABD. Agradecimentos sempre à Zita
Carvalhosa. Minhas primeiras conversas com Santeiro
foram em torno da Lei do Curta.
A presidência era de André Sturm (SP)
em fim de segundo mandato, e Giba Assis Brasil (RS)
era o vice. Havia uma proposta defendida pela ABD&C/RJ
de retornar ao sistema de diretoria colegiada da
entidade, acabando com o sistema presidencialista.
Sobre este ponto, a ABD-SP tenha proposta diferente – presidencialista
- e estava articulando uma chapa (Leopoldo Nunes
estava nesta chapa). É bom lembrar que a divisão
da diretoria da ABD era feita por 5 regiões
e 5 votos: Rio, São Paulo, Sul, Norte/Nordeste
e Centro-Oeste/Leste, sendo que Rio e São
Paulo alternavam a presidência. Participei
dessa Assembléia Geral sem conhecer ninguém,
mas acabamos por criar um grupo que elegeu Sérgio
Santeiro como presidente e derrubou tanto a proposta
parlamentarista carioca quanto a intenção
paulista de manter a presidência em casa. A
diretoria eleita foi composta também com Luís
Carlos Soares (SP), Cláudio Assis (PE), André Luis
da Cunha (DF) e Zeca Pires (SC). Sua meta prioritária
a regulamentação da Lei do Curta.
Durante o biênio 97/98, Vox Populi participou
de vários festivais brasileiros, onde tive
contato com a maioria dos realizadores do país,
o que reacendeu minha verve de militância política
dos tempos da UEE e da UNE. Comecei a freqüentar
as reuniões da ABD&C/RJ, onde as pautas
eram, digamos, mais pragmáticas. Encontrávamo-nos
quinzenalmente no Cosme Velho, na casa-sede da Raccord,
cujos sócios eram os também abedistas
Rosane Svartman, Vinícius Reis e Clélia
Bessa. O presidente carioca de então era Eduardo
Nunes, que foi sucedido por Paulo Halm, que por sua
vez o foi por duas vezes Mário Diamente (da última
chapa eu fui diretor) e, na seqüência,
por este Marcelo Laffitte que ora escreve.
Abro parênteses na narrativa para uma opinião.
Uma particularidade marcante das ABDs do Rio e de
São Paulo até o fim dos anos 90, que
acaba influenciando toda a política nacional
pelo peso desses Estados, é serem compostas
por realizadores de curtas de ficção
com produção em película. Em
outras regiões do país esta situação é muito
diferente, pois a ABD local é o único
ponto de referência dos profissionais, estudantes
ou interessados em audiovisual em várias capitais
do país, aglutinando repórteres e cinegrafistas
de TV, realizadores de vídeo, publicitários,
cineclubistas e outros. Com a afirmação
da produção digital, com a redescoberta
do documentário como produto cinematográfico
de sucesso e com a chegada ao cenário de inúmeros
estudantes dos novos cursos e faculdades de cinema,
este predomínio comum às ABDs carioca
e paulista tende a diminuir, o que talvez leve
essas entidades para mais perto das realidades
das outras ABDs brasileiras.
No início de 1999, criamos uma lista de discussão
pela internet que fosse exclusiva para assuntos abedistas.
A lista então ABD - hoje ABEDISTAS - começou
com meia dúzia de gatos pingados, entre eles
Chiquinho César Filho, Giba, Andréa
Glória, Leopoldo Nunes, Paulo Halm, Moema
Muller, Silvio Da-Rin, Toni Venturi e alguns outros
realizadores espalhados pelos Estados do país.
Começou-se a perceber que os movimentos políticos
estaduais estavam completamente desarticulados e
isolados de uma política nacional para o curta-metragem,
a ponto de – e cabe apenas como exemplo - os
realizadores de Minas Gerais terem criado a Associação
Curta Minas sem saber que já tinha havido
uma ABD-MG no passado. Justamente nesta época, a
então Secretaria do Audiovisual do MinC editou
um concurso nacional para curtas (Paulo Halm deu
uma prensa pública no ministro Weffort durante
o Festival do Recife) e as expectativas, dúvidas
e demandas de curta-metragistas do Brasil inteiro
sobre o concurso começaram a ser trocadas
diariamente pela lista. Sentiu-se, então,
a necessidade urgente de se ter uma ABD Nacional
que não fosse exclusivamente um instrumento
para regulamentar a Lei do Curta e, naquele momento,
emergiu a liderança de Leopoldo Nunes.
Em agosto de 1999 houve eleição na
ABD Nacional, sempre no Festival de Curtas de São
Paulo, organizado por Zita Carvalhosa,
e a chapa eleita era composta por Leopoldo Nunes
(SP), Paulo Halm (RJ), Fernando Severo (PR), Eduardo
Benfica (GO) e Emanoel Freitas (PA). Algumas ABDs
estaduais estavam se reestruturando e outras novas
sendo criadas (não estou certo, mas creio
que o número de ABDs naquele ano era de 17
ou 18), e o carro-chefe da mobilização
eram os concursos federais.
A administração de José Álvaro
Moisés (conhecido por nós como JAM)
na Secretaria do Audiovisual, apesar de equivocada
em vários pontos, foi saudável para
a organização tanto da ABD Nacional
quanto das regionais. Não fossem os concursos
federais com seus problemas, e não fosse a
lista na internet com sua velocidade na troca de
informações e mobilização,
a história da ABD seria diferente. Foi somando
tudo isto, por exemplo, que Leopoldo implementou
o Convênio Nacional ABD, uma extensa negociação
comercial de descontos com fornecedores de equipamentos
e serviços exclusivamente para curtas, que
viabilizou a realização de filmes em
Belém, Cuiabá, João Pessoa,
Juiz de Fora, Ribeirão Preto e outras cidades
com dificílimo acesso às condições
de produção. Politicamente, pela primeira
vez desde a sua fundação em 1973, a
ABD cristalizou uma representação realmente
nacional. A produção de curtas subiu
para a casa dos três dígitos e iniciamos
a média dos 180 filmes/ano.
A primeira gestão de Leopoldo Nunes, de 1999
a 2001, foi basicamente pautada pelo fortalecimento
das estruturas internas da ABD e da legitimidade
de representação institucional em nível
nacional, em relação
aos poderes públicos e às outras entidades
da classe. O ano de 2001 foi o ano do GEDIC – Grupo
Executivo de Desenvolvimento da Indústria
do Cinema e da ANCINE – Agência Nacional
do Cinema, foi o ano em que se alteraram profundamente
as relações da produção
audiovisual, representou um momento de intensa movimentação
política dentro da classe cinematográfica,
principalmente com a atuação do Congresso
Brasileiro de Cinema, e a ABD, enquanto fortalecia
suas bases, marcava posição nas grandes
questões institucionais com a força
de seus mais de 1.200 associados militando em mais
de 20 afiliadas. Em 2001, também, houve
eleição na ABD Nacional e a diretoria
eleita foi composta por novamente Leopoldo Nunes
(SP), Roger Madruga (DF), Emanoel Freitas (PA), Gustavo
Spolidoro (RS) e eu ocupando a vice-presidência
pelo Rio de Janeiro. Cabe aqui registrar que em 2001
também fui eleito presidente da ABD&C/RJ
e diretor do Congresso Brasileiro de Cinema
Chegamos finalmente em 2002 com o país preste
a mudar o Presidente da República e o cinema
esperançoso quanto às definições
dos rumos da recém implantada ANCINE. Esta última,
infelizmente, viu-se perdida entre os ditames da
burocracia estatal e as complexas demandas da classe,
não conseguindo agilidade suficiente para
mostrar a que veio. Por outro lado, os debates da
disputa presidencial fizeram arena própria
no meio cinematográfico, contrapondo ideologias
que variavam do nacionalismo contundente ao liberalismo
total, principalmente em relação
ao sistema de financiamento e funcionamento da indústria
audiovisual. Durante todo este ano, a totalidade
dos programas federais afetos ao curta-metragem foi
inconseqüentemente interrompida, desde a simples
passagem para festivais internacionais até os
concursos de produção. O ano termina
e Lula é presidente.
Entre a eleição e a posse de Lula,
o cinema se articula para, de alguma forma, influenciar
nas futuras ações de governo e, neste
momento, a atuação da ABD é fundamental
e decisiva. Gilberto Gil é empossado Ministro
da Cultura e, com forte apoio da ABD Nacional e de
suas afiliadas, Orlando Senna é nomeado para
ocupar a Secretaria do Audiovisual, levando consigo
Leopoldo Nunes para ocupar a Chefia de Gabinete que,
de certa forma, equivale a subsecretário.
Mais importante que a ocupação de cargos,
a presença de Orlando e Leopoldo no governo,
seguidos logo depois por Manoel Rangel, representava
claramente para a classe que os paradigmas das relações
com o governo estavam mudando rumo à democratização
dos recursos, à descentralização
e regionalização da produção
e à transparência e participação
política, que sempre foram bandeiras históricas
da ABD. E assim foi: desde o primeiro momento, o
novo governo afirma sua convicção de
que o audiovisual é estratégico para
o projeto de país que se apresenta, e o MinC,
por sua vez, declara seu entendimento de que o audiovisual é um
assunto cultural, mesmo que tenha pontos em comum
com outros ministérios. Com a ida de Leopoldo
para o Ministério, assumo a vaga de presidente
da ABD Nacional.
O governo Lula inicia com contingências orçamentárias
em todos os setores, inclusive o cultural e cinematográfico.
Os primeiros meses, na ausência de perspectiva
imediata de implementar ações, a equipe
do audiovisual empenha-se em criar os alicerces para
uma intervenção mais decisiva. Tirantes
questões e polêmicas conjunturais, como
foi o caso do patrocínio das empresas estatais,
o desafio do MinC era trazer para si o controle sistêmico
da atividade cinematográfica e a grande batalha
foi a vinculação da ANCINE que, originalmente
na Medida Provisória de sua criação
(MP 2228-1), estaria vinculada ao Ministério
do Desenvolvimento da Indústria e Comércio.
Após meses de debates e articulações,
por vezes até traumáticas para as relações
institucionais, Lula finalmente assina a vinculação
da Agência ao Ministério da Cultura.
Neste mesmo dia, Lula coloca um boné da
ABD Nacional e empunha uma câmera 16MM e se
torna o primeiro presidente documentarista da história
do Brasil.
Durante este período de estiagem produtiva
e intensa movimentação política,
a ABD Nacional também aproveitou para reformular
sua organização interna. Sempre com
os olhos para a representação nacional
e para a regionalização da produção,
a entidade começa um processo de alteração
estatutária, aumentando o número de
unidades regionais - de 5 passamos a 7, equilibrando
a participação das regiões Norte,
Nordeste e Centro-Oeste – e passando de 5 para
10 o número de vagas na diretoria. Em agosto
de 2003, como sempre no Festival de São Paulo,
fazemos novas eleições para a ABD Nacional
na qual fui eleito presidente, na diretoria composta
por também por Guigo Pádua (MG), Hermano
Figueiredo (AL), Paulo Boccato (SP), Caio Cesaro
(PR), Érika Bauer (DF), Solange Lima (BA),
Marta Nassar (PA), Pedro Rosa (RJ) e André Ristum
(SP).
Concomitantemente, pressionávamos o governo
para garantir a participação da classe
cinematográfica nos processos decisórios
e viabilizar programas de fomento antigos e novos.
O resultado foi que fechamos 2003 com posse tanto
o Conselho Superior de Cinema quanto no Conselho
Consultivo da SAv, e com um investimento direto do
governo federal, por intermédio de concursos
públicos, que impressionava menos pelos montante
dos recursos, que eram os mesmos R$15mi, do que pela
proliferação de certames (documentários,
infantis, longas, curtas, distribuição,
roteiros etc). Hoje esses concursos são o
DocTV, os BO’s etc.
O ano de 2004 está apenas começando
e nossos grandes desafios são três:
um interno, outro externo e um terceiro que é eterno.
Internamente, toda a nossa atenção
deverá estar voltada para a definição
e aprimoramento das questões da regionalização
da produção, de forma clara e consciente,
sem bairrismos ou fobias despropositadas. Nas relações
com a classe e com o governo, a meta é transformar
os mecanismos de participação (como
o Conselho Consultivo da SAv e outros a serem criados)
em fóruns deliberativos e permanentes, que
não fiquem ao sabor dos humores do governo
de plantão. E, finalmente, a Lei do Curta.
Porque a grande revolução que o cinema
pode fazer numa sociedade é fazê-la
presente em suas telas para ser vista e conhecida, é a
afirmação da identidade através
do seu próprio reconhecimento. E para isso
nada melhor que um bom curta-metragem brasileiro
antes de um filme hollywoodiano.
MARCELO LAFFITTE – Diretor dos curtas-metragens
Fúria, Ópera Curta, Banquete e Vox
Populi. Na ABD Nacional foi vice-presidente eleito
em 2001, presidente em exercício a partir
de janeiro de 2003 e eleito presidente para o mandato
2003/2005. Na ABD&C/RJ, foi presidente
da em 2002, além de várias vezes ter
assumido diretorias. Foi diretor do Congresso Brasileiro
de Cinema de 01/03. É titular do Conselho
Consultivo da SAv para o biênio 2004/2005.
Texto escrito em 09/01/2004, para ser publicado
no livro ABD 30 anos.
Revisto em 28/01/06 para ser publicado no site www.abdnacional.org.br.