O Olhar Abedista: Marcelo Laffitte
   

Marcelo Laffitte
Meu primeiro contato com a ABD aconteceu num dos primeiros meses de 1982. Eu tinha 19 anos, estudava e fazia estágio no laboratório de still do cineasta e fotógrafo André Farias, diretor do censurado Prata Palomares, que vive hoje em Curitiba.

Havia reuniões da ABD que ocorriam na PUC (onde eu estudava), e fui lá eu. Era numa sala do Departamento de Comunicação, no Edifício Kennedy, e me lembro das figuras de Sérgio Rezende, Sérgio Santeiro, Silvio Da-Rin, Noilton Nunes, José Joffily e mais um ou dois realizadores, todos na casa dos 30 e todos homens. Falava-se algo sobre a lei da obrigatoriedade de exibição do curta, de uma possível reunião com um ministro qualquer etc., mas confesso que fui embora achando tudo muito chato. Só voltei a participar de outra reunião da ABD muitos anos depois.

Agosto de 97, Festival de Curtas de São Paulo. Meu primeiro curta, Vox Populi, no seu primeiro festival. Vou dividir quarto com Sérgio Santeiro, que tinha ido para participar da eleição da 3a Diretoria Nacional da ABD. Agradecimentos sempre à Zita Carvalhosa. Minhas primeiras conversas com Santeiro foram em torno da Lei do Curta.
A presidência era de André Sturm (SP) em fim de segundo mandato, e Giba Assis Brasil (RS) era o vice. Havia uma proposta defendida pela ABD&C/RJ de retornar ao sistema de diretoria colegiada da entidade, acabando com o sistema presidencialista. Sobre este ponto, a ABD-SP tenha proposta diferente – presidencialista - e estava articulando uma chapa (Leopoldo Nunes estava nesta chapa). É bom lembrar que a divisão da diretoria da ABD era feita por 5 regiões e 5 votos: Rio, São Paulo, Sul, Norte/Nordeste e Centro-Oeste/Leste, sendo que Rio e São Paulo alternavam a presidência. Participei dessa Assembléia Geral sem conhecer ninguém, mas acabamos por criar um grupo que elegeu Sérgio Santeiro como presidente e derrubou tanto a proposta parlamentarista carioca quanto a intenção paulista de manter a presidência em casa. A diretoria eleita foi composta também com Luís Carlos Soares (SP), Cláudio Assis (PE), André Luis da Cunha (DF) e Zeca Pires (SC). Sua meta prioritária a regulamentação da Lei do Curta.
 
Durante o biênio 97/98, Vox Populi participou de vários festivais brasileiros, onde tive contato com a maioria dos realizadores do país, o que reacendeu minha verve de militância política dos tempos da UEE e da UNE. Comecei a freqüentar as reuniões da ABD&C/RJ, onde as pautas eram, digamos, mais pragmáticas. Encontrávamo-nos quinzenalmente no Cosme Velho, na casa-sede da Raccord, cujos sócios eram os também abedistas Rosane Svartman, Vinícius Reis e Clélia Bessa. O presidente carioca de então era Eduardo Nunes, que foi sucedido por Paulo Halm, que por sua vez o foi por duas vezes Mário Diamente (da última chapa eu fui diretor) e, na seqüência, por este Marcelo Laffitte que ora escreve.

Abro parênteses na narrativa para uma opinião. Uma particularidade marcante das ABDs do Rio e de São Paulo até o fim dos anos 90, que acaba influenciando toda a política nacional pelo peso desses Estados, é serem compostas por realizadores de curtas de ficção com produção em película. Em outras regiões do país esta situação é muito diferente, pois a ABD local é o único ponto de referência dos profissionais, estudantes ou interessados em audiovisual em várias capitais do país, aglutinando repórteres e cinegrafistas de TV, realizadores de vídeo, publicitários, cineclubistas e outros. Com a afirmação da produção digital, com a redescoberta do documentário como produto cinematográfico de sucesso e com a chegada ao cenário de inúmeros estudantes dos novos cursos e faculdades de cinema, este predomínio comum às ABDs carioca e paulista tende a diminuir, o que talvez leve essas entidades para mais perto das realidades das outras ABDs brasileiras.
 
No início de 1999, criamos uma lista de discussão pela internet que fosse exclusiva para assuntos abedistas. A lista então ABD - hoje ABEDISTAS - começou com meia dúzia de gatos pingados, entre eles Chiquinho César Filho, Giba, Andréa Glória, Leopoldo Nunes, Paulo Halm, Moema Muller, Silvio Da-Rin, Toni Venturi e alguns outros realizadores espalhados pelos Estados do país. Começou-se a perceber que os movimentos políticos estaduais estavam completamente desarticulados e isolados de uma política nacional para o curta-metragem, a ponto de – e cabe apenas como exemplo - os realizadores de Minas Gerais terem criado a Associação Curta Minas sem saber que já tinha havido uma ABD-MG no passado. Justamente nesta época, a então Secretaria do Audiovisual do MinC editou um concurso nacional para curtas (Paulo Halm deu uma prensa pública no ministro Weffort durante o Festival do Recife) e as expectativas, dúvidas e demandas de curta-metragistas do Brasil inteiro sobre o concurso começaram a ser trocadas diariamente pela lista. Sentiu-se, então, a necessidade urgente de se ter uma ABD Nacional que não fosse exclusivamente um instrumento para regulamentar a Lei do Curta e, naquele momento, emergiu a liderança de Leopoldo Nunes.
 
Em agosto de 1999 houve eleição na ABD Nacional, sempre no Festival de Curtas de São Paulo, organizado por Zita Carvalhosa, e a chapa eleita era composta por Leopoldo Nunes (SP), Paulo Halm (RJ), Fernando Severo (PR), Eduardo Benfica (GO) e Emanoel Freitas (PA). Algumas ABDs estaduais estavam se reestruturando e outras novas sendo criadas (não estou certo, mas creio que o número de ABDs naquele ano era de 17 ou 18), e o carro-chefe da mobilização eram os concursos federais.
 
A administração de José Álvaro Moisés (conhecido por nós como JAM) na Secretaria do Audiovisual, apesar de equivocada em vários pontos, foi saudável para a organização tanto da ABD Nacional quanto das regionais. Não fossem os concursos federais com seus problemas, e não fosse a lista na internet com sua velocidade na troca de informações e mobilização, a história da ABD seria diferente. Foi somando tudo isto, por exemplo, que Leopoldo implementou o Convênio Nacional ABD, uma extensa negociação comercial de descontos com fornecedores de equipamentos e serviços exclusivamente para curtas, que viabilizou a realização de filmes em Belém, Cuiabá, João Pessoa, Juiz de Fora, Ribeirão Preto e outras cidades com dificílimo acesso às condições de produção. Politicamente, pela primeira vez desde a sua fundação em 1973, a ABD cristalizou uma representação realmente nacional. A produção de curtas subiu para a casa dos três dígitos e iniciamos a média dos 180 filmes/ano.
 
A primeira gestão de Leopoldo Nunes, de 1999 a 2001, foi basicamente pautada pelo fortalecimento das estruturas internas da ABD e da legitimidade de representação institucional em nível nacional, em relação aos poderes públicos e às outras entidades da classe. O ano de 2001 foi o ano do GEDIC – Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria do Cinema e da ANCINE – Agência Nacional do Cinema, foi o ano em que se alteraram profundamente as relações da produção audiovisual, representou um momento de intensa movimentação política dentro da classe cinematográfica, principalmente com a atuação do Congresso Brasileiro de Cinema, e a ABD, enquanto fortalecia suas bases, marcava posição nas grandes questões institucionais com a força de seus mais de 1.200 associados militando em mais de 20 afiliadas. Em 2001, também, houve eleição na ABD Nacional e a diretoria eleita foi composta por novamente Leopoldo Nunes (SP), Roger Madruga (DF), Emanoel Freitas (PA), Gustavo Spolidoro (RS) e eu ocupando a vice-presidência pelo Rio de Janeiro. Cabe aqui registrar que em 2001 também fui eleito presidente da ABD&C/RJ e diretor do Congresso Brasileiro de Cinema
 
Chegamos finalmente em 2002 com o país preste a mudar o Presidente da República e o cinema esperançoso quanto às definições dos rumos da recém implantada ANCINE. Esta última, infelizmente, viu-se perdida entre os ditames da burocracia estatal e as complexas demandas da classe, não conseguindo agilidade suficiente para mostrar a que veio. Por outro lado, os debates da disputa presidencial fizeram arena própria no meio cinematográfico, contrapondo ideologias que variavam do nacionalismo contundente ao liberalismo total, principalmente em relação ao sistema de financiamento e funcionamento da indústria audiovisual. Durante todo este ano, a totalidade dos programas federais afetos ao curta-metragem foi inconseqüentemente interrompida, desde a simples passagem para festivais internacionais até os concursos de produção. O ano termina e Lula é presidente.
 
Entre a eleição e a posse de Lula, o cinema se articula para, de alguma forma, influenciar nas futuras ações de governo e, neste momento, a atuação da ABD é fundamental e decisiva. Gilberto Gil é empossado Ministro da Cultura e, com forte apoio da ABD Nacional e de suas afiliadas, Orlando Senna é nomeado para ocupar a Secretaria do Audiovisual, levando consigo Leopoldo Nunes para ocupar a Chefia de Gabinete que, de certa forma, equivale a subsecretário. Mais importante que a ocupação de cargos, a presença de Orlando e Leopoldo no governo, seguidos logo depois por Manoel Rangel, representava claramente para a classe que os paradigmas das relações com o governo estavam mudando rumo à democratização dos recursos, à descentralização e regionalização da produção e à transparência e participação política, que sempre foram bandeiras históricas da ABD. E assim foi: desde o primeiro momento, o novo governo afirma sua convicção de que o audiovisual é estratégico para o projeto de país que se apresenta, e o MinC, por sua vez, declara seu entendimento de que o audiovisual é um assunto cultural, mesmo que tenha pontos em comum com outros ministérios. Com a ida de Leopoldo para o Ministério, assumo a vaga de presidente da ABD Nacional.
 
O governo Lula inicia com contingências orçamentárias em todos os setores, inclusive o cultural e cinematográfico. Os primeiros meses, na ausência de perspectiva imediata de implementar ações, a equipe do audiovisual empenha-se em criar os alicerces para uma intervenção mais decisiva. Tirantes questões e polêmicas conjunturais, como foi o caso do patrocínio das empresas estatais, o desafio do MinC era trazer para si o controle sistêmico da atividade cinematográfica e a grande batalha foi a vinculação da ANCINE que, originalmente na Medida Provisória de sua criação (MP 2228-1), estaria vinculada ao Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio. Após meses de debates e articulações, por vezes até traumáticas para as relações institucionais, Lula finalmente assina a vinculação da Agência ao Ministério da Cultura. Neste mesmo dia,  Lula coloca um boné da ABD Nacional e empunha uma câmera 16MM e se torna o primeiro presidente documentarista da história do Brasil.
 
Durante este período de estiagem produtiva e intensa movimentação política, a ABD Nacional também aproveitou para reformular sua organização interna. Sempre com os olhos para a representação nacional e para a regionalização da produção, a entidade começa um processo de alteração estatutária, aumentando o número de unidades regionais - de 5 passamos a 7, equilibrando a participação das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste – e passando de 5 para 10 o número de vagas na diretoria. Em agosto de 2003, como sempre no Festival de São Paulo, fazemos novas eleições para a ABD Nacional na qual fui eleito presidente, na diretoria composta por também por Guigo Pádua (MG), Hermano Figueiredo (AL), Paulo Boccato (SP), Caio Cesaro (PR), Érika Bauer (DF), Solange Lima (BA), Marta Nassar (PA), Pedro Rosa (RJ) e André Ristum (SP).
 
Concomitantemente, pressionávamos o governo para garantir a participação da classe cinematográfica nos processos decisórios e viabilizar programas de fomento antigos e novos. O resultado foi que fechamos 2003 com posse tanto o Conselho Superior de Cinema quanto no Conselho Consultivo da SAv, e com um investimento direto do governo federal, por intermédio de concursos públicos, que impressionava menos pelos montante dos recursos, que eram os mesmos R$15mi, do que pela proliferação de certames (documentários, infantis, longas, curtas, distribuição, roteiros etc). Hoje esses concursos são o DocTV, os BO’s etc. 
 
O ano de 2004 está apenas começando e nossos grandes desafios são três: um interno, outro externo e um terceiro que é eterno. Internamente, toda a nossa atenção deverá estar voltada para a definição e aprimoramento das questões da regionalização da produção, de forma clara e consciente, sem bairrismos ou fobias despropositadas. Nas relações com a classe e com o governo, a meta é transformar os mecanismos de participação (como o Conselho Consultivo da SAv e outros a serem criados) em fóruns deliberativos e permanentes, que não fiquem ao sabor dos humores do governo de plantão. E, finalmente, a Lei do Curta. Porque a grande revolução que o cinema pode fazer numa sociedade é fazê-la presente em suas telas para ser vista e conhecida, é a afirmação da identidade através do seu próprio reconhecimento. E para isso nada melhor que um bom curta-metragem brasileiro antes de um filme hollywoodiano.
 
MARCELO LAFFITTE – Diretor dos curtas-metragens Fúria, Ópera Curta, Banquete e Vox Populi. Na ABD Nacional foi vice-presidente eleito em 2001, presidente em exercício a partir de janeiro de 2003 e eleito presidente para o mandato 2003/2005.  Na ABD&C/RJ, foi presidente da em 2002, além de várias vezes ter assumido diretorias. Foi diretor do Congresso Brasileiro de Cinema de 01/03. É titular do Conselho Consultivo da SAv para o biênio 2004/2005.

Texto escrito em 09/01/2004, para ser publicado no livro ABD 30 anos.
Revisto em 28/01/06 para ser publicado no site www.abdnacional.org.br.

 

   

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